Moda íntima deixa de ocupar apenas o espaço privado e ganha protagonismo em tendências, identidade, sensualidade e comportamento feminino.
A lingerie voltou ao centro das discussões sobre moda e sensualidade em 2026. Peças antes pensadas principalmente para permanecer sob as roupas aparecem cada vez mais como elementos visíveis dos looks, enquanto marcas e estilistas exploram rendas, transparências, modelagens inspiradas em sutiãs e outras referências da moda íntima. Uma análise publicada pela The New Yorker nesta semana mostra que essa transformação ultrapassa as passarelas e alcança discussões sobre identidade, cultura, consumo e até posicionamentos políticos nos Estados Unidos.
A tendência também pode ser observada nas coleções atuais. A Vogue aponta as peças inspiradas em lingerie e os tecidos transparentes entre os elementos importantes da temporada de outono de 2026, dentro de um movimento que coloca novamente o corpo e a sensualidade no centro da construção das roupas. No Brasil, o chamado sutiã-biquíni aparece entre as apostas para as temporadas Primavera/Verão 2026/27 e 2027/28, deixando de ficar restrito à roupa íntima para aparecer em sobreposições e produções externas.
O fenômeno ajuda a responder uma pergunta maior: por que a lingerie voltou a ganhar tanto protagonismo? Parte da resposta está na mudança da própria relação das consumidoras com a moda íntima. Conforto continua relevante, mas divide espaço com individualidade, sensualidade, autoestima e liberdade para escolher quando uma peça íntima deve permanecer escondida — e quando pode fazer parte do visual.
Por que a lingerie voltou ao centro das tendências de moda
A moda de 2026 apresenta uma valorização evidente da expressão individual. A previsão de tendências de outono publicada pela Vogue destaca roupas que acompanham as formas do corpo, transparências e elementos inspirados em lingerie entre os movimentos importantes da temporada. Em vez de existir apenas como roupa usada por baixo de vestidos, blusas e calças, a estética íntima começa a participar diretamente da construção do visual.
Essa mudança acompanha um movimento mais amplo da moda, que está menos concentrada em uma única regra estética. A Cosmopolitan, ao analisar as tendências de outono/inverno de 2026, identifica uma temporada marcada por individualidade, peças expressivas e maior liberdade na combinação de referências. A proposta predominante é menos sobre obedecer a uma fórmula e mais sobre utilizar as roupas como extensão da personalidade.
Na moda íntima brasileira, um exemplo dessa transformação é o sutiã-biquíni. Inspirado na modelagem triangular tradicionalmente associada à moda praia, ele aparece como tendência para as próximas temporadas. Segundo análise da Zanotti, a peça combina uma estética minimalista com sensualidade e versatilidade, podendo ser utilizada tanto como lingerie tradicional quanto como elemento aparente em diferentes composições.
Essa fronteira cada vez menor entre roupa íntima e roupa externa ajuda a transformar o significado da lingerie. Uma peça pode cumprir uma função prática durante o cotidiano e, ao mesmo tempo, funcionar como elemento de estilo. Rendas, tecidos acetinados, transparências e modelagens estruturadas passam a ser escolhidos não apenas pela aparência para outra pessoa, mas pela maneira como a própria consumidora deseja se vestir e se expressar.
O mercado brasileiro também acompanha uma mudança no comportamento de consumo. Material do Sebrae sobre as tendências da moda íntima em 2026 identifica demandas relacionadas a conforto, inclusão, bem-estar, autenticidade e sustentabilidade. O segmento passa a dialogar mais diretamente com autocuidado, diversidade corporal e funcionalidade, ampliando o significado tradicional atribuído à lingerie.
Como sensualidade e expressão pessoal mudaram a moda íntima
A relação entre lingerie e sensualidade não é nova, mas a forma como essa relação é apresentada mudou diversas vezes ao longo da história. A reportagem da The New Yorker mostra justamente como roupas íntimas femininas estiveram relacionadas a diferentes discussões sociais e culturais, passando por debates sobre liberdade corporal, padrões de beleza, feminismo, publicidade e representação da mulher.
A própria evolução do sutiã ajuda a demonstrar essa relação. A reportagem recupera a história da francesa Herminie Cadolle, que no fim do século XIX experimentou modificações no espartilho buscando proporcionar maior liberdade de movimento às mulheres. Seu corselet-gorge é frequentemente apontado como um dos precursores do sutiã moderno. Décadas depois, a lingerie se transformaria em uma indústria mundial associada simultaneamente a funcionalidade, moda e sensualidade.
Essa história também explica por que uma peça aparentemente simples pode carregar significados diferentes. Em determinados momentos, a lingerie foi criticada como instrumento de padrões corporais criados para atender expectativas externas. Em outros, passou a ser apresentada como ferramenta de autonomia e expressão individual. A análise da revista americana mostra que essa disputa cultural permanece presente em 2026, embora apareça sob novas formas.
Um exemplo recente está na criação da marca de lingerie SYRN, de Sydney Sweeney. A New Yorker analisa como o lançamento da empresa acabou inserido em uma discussão cultural e política nos Estados Unidos, mesmo com a atriz evitando assumir publicamente esse enquadramento. A presença de marcas de lingerie em festivais, campanhas e redes sociais mostra como a moda íntima ganhou um espaço que ultrapassa a simples venda de peças.
Essa transformação não significa que toda escolha de lingerie seja uma declaração social ou política. Para grande parte das consumidoras, fatores como conforto, caimento, preço, durabilidade e preferência estética continuam sendo determinantes. O ponto relevante é que o mercado passou a reconhecer um número maior de motivações e deixou de tratar a consumidora feminina como se existisse apenas uma definição de sensualidade.
O que essa transformação revela sobre autoestima e o futuro da moda íntima
A valorização da individualidade está entre os elementos que ajudam a compreender a moda íntima atual. O levantamento do Sebrae sobre o setor aponta que as novas demandas incluem diversidade de corpos, body positive, conforto, funcionalidade e bem-estar. Também identifica oportunidades em segmentos como plus size, maternidade, pós-cirurgia, peças sem costura e produtos adaptativos.
Isso significa que sensualidade e conforto deixaram de ser necessariamente conceitos opostos. Uma peça pode ter apelo sensual e, simultaneamente, ser escolhida porque proporciona segurança, bom ajuste ou simplesmente porque corresponde ao estilo pessoal de quem a utiliza. Para as marcas, essa mudança exige ampliar modelagens, tamanhos e formas de comunicação.
A própria tendência do sutiã-biquíni ilustra esse encontro. A peça apresenta construção relativamente simples e referência ao conforto da moda praia, mas aparece também como elemento visual de looks mais ousados. Ao permitir que a lingerie seja mostrada deliberadamente, a tendência transforma aquilo que antes precisava permanecer escondido em uma escolha de styling.
Outro elemento importante é a autenticidade das campanhas. Segundo o Sebrae, consumidores estão mais atentos ao propósito das empresas, origem dos produtos e experiência de compra. Campanhas autênticas e comunicação capaz de representar diferentes públicos aparecem entre as estratégias relevantes para empresas de moda íntima que desejam se diferenciar.
Ao mesmo tempo, a lingerie continua sujeita a contradições. A análise da New Yorker mostra que diferentes grupos tentam atribuir significados culturais à sensualidade feminina. A mesma peça pode ser apresentada como símbolo de liberdade por uma pessoa e interpretada de maneira completamente diferente por outra. Isso reforça que a discussão atual não é apenas sobre quais modelos estão na moda, mas também sobre quem define o que significa ser sensual.
A moda íntima de 2026 parece caminhar justamente para uma resposta menos rígida. Não existe uma única estética capaz de representar feminilidade, sensualidade ou autoestima. Peças minimalistas convivem com rendas, transparências, referências vintage e propostas mais funcionais, enquanto a lingerie aparece tanto escondida quanto deliberadamente exposta.
Para as consumidoras, essa mudança amplia as possibilidades de escolha. Para as empresas, cria um mercado no qual entender comportamento, diversidade corporal e identidade pode ser tão importante quanto acompanhar cores e tecidos da temporada. E, para a moda, confirma algo que as passarelas e as ruas vêm mostrando: a lingerie deixou de ser apenas aquilo que existe por baixo da roupa e passou a participar diretamente da maneira como muitas mulheres constroem sua própria imagem.
Fontes:
The New Yorker — Have Conservatives Taken Sexy Back?
The New Yorker — Especial Style & Design 2026
The New Yorker — Five Books for Lingerie Lovers, publicado em 09/09/2026
Vogue — Fall 2026 Fashion Forecast